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AS DERRADEIRAS 24 HORAS DA MONARQUIA EM MAFRA

A transferência e instalação da Corte em Mafra, durante a maior parte da regência do Príncipe D. João, ate a partida para o Brasil, em 1808, atraiu para a vila, mas igualmente para a sua região, uma grande variedade de eventos destabilizadores da costumada pacatez dessa espécie de aurea mediocritas em que se transformara, merce de algumas circunstancias, a saber (entre outras):

a conspiração dita de Mafra, urdida no paco dos Ponte de Lima, em 1806, visando a destituição de D. João como Regente e sua substituição por D. Carlota Joaquina, instigadora do movimento;
a ocupação, durante aproximadamente seis meses, em 1808-1809, do Palácio de Mafra, derradeira residência regia antes da partida da Família Real para o Brasil, por uma divisão do exercito invasor de Junot, comandada por Loison, o mal-afamado e sanguinário Maneta;
a adesão incondicional ao ideário absolutista, protagonizado pelo Infante D. Miguel, contra as expectativas geradas pelo constitucionalismo vintista. De resto, a própria autarquia mafrense daria testemunho de tal opção quase milenarista, numa Representação ao Rei contra os Liberais (27 de marco de 1832), em que são evocados o Juramento de Ourique e o Sonho de Nabucodonosor (Profeta Daniel).

Se não contribuíram para sanar feridas, ainda recentes e respetivas sequelas, a aclamação de D. Maria II (outubro de 1833) e a Convenção de Évora-Monte (26 de maio de 1834), terão, pelo menos, dado um sinal inequívoco quanto a imperiosa necessidade de um apaziguamento moral, social, institucional e politico, gerador de renovados alentos e do reforço de solidariedades inevitáveis.

De facto, em Mafra, o regime constitucional, propiciou estabilidade e relativos progresso e abundancia, bem como o fortalecimento de laços afetivos e de proximidade com o novo Poder, a semelhança daqueles que os pais nutrem pelos filhos.

Quis o Fado Português, outros apontarão o dedo a historia, ou aos ventos que a impulsionam e dela são concomitante testemunho, que o cenário e teia do termo da monarquia nacional fosse a Real Obra de Mafra, do Magnânimo D. João V, e o palco e boca de cena dele a nesga de areal da Praia dos Pescadores, na Ericeira, ai onde, a 5 de outubro de 1910, o derradeiro monarca constitucional protagonizou a despedida, dizem “para nunca mais”, a bordo da Bonfim, barca para si e da sua dinastia símile da de Caronte.

Com efeito, o Palácio Nacional de Mafra e a vila da Ericeira ficaram, e hão-de permanecer, indelevelmente associados ao final do regime monárquico português saído do constitucionalismo vintista, em consequência de terem constituído o cenário da abdicação, involuntária, de D. Manuel II.

Todavia, se, então, a abdicação foi involuntária, já o recuo estratégico do rei para Mafra, no dia 4 de outubro de 1910, quando se tornou evidente que uma insurreição republicana concertada se achava em curso, foi inegavelmente intencional, porquanto esse era um território onde a Família Real e o ideal monárquico contavam com muitos indefetíveis, podendo tornar-se placa giratória favorável a uma eventual resistência. De facto, o embarque da Família Real portuguesa para o exílio (naquela hora imprevisto), na Ericeira, não é suscetível de conceber-se mais consensual em qualquer outra região de Portugal