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A IDEIA DO MONUMENTO DE MAFRA

O Monumento de Mafra teve Heliopolis, a Cidade do Sol, por modelo. Robert Smith admitiria algo equivalente, quando disse tratar-se de um microcosmo da Roma Barroca em Portugal.

De facto, o Monumento de Mafra é o exemplo vivo de um peculiar modo de con¬ceber e dar testemunho da tradição milenarista e escatológica nacional. Explicitado com irrepreensível rigor iconográfico, o surpreendente programa iconológico definido por D. João V é tudo menos óbvio para o observador, invariavelmente impreparado (outras vezes despreparado).

Por ser a Casa de Deus, o espaço de um templo é expressamente concebido para propiciar o contacto da humanidade com a divindade transcendente, mas também com a imanente, manifestando, como tal, um complexo universo de referências cosmológicas, ideológicas e de fé, encarnadas por símbolos e liturgias (que não deixam de ser símbolos). A legibilidade de uns e de outras será tanto mais efetiva quanto mais proficiente for o observador no concomitante conhecimento dos do¬gmas e sistemas de ideias subjacentes às formas (geométricas, aritmológicas, etc.), bem como no controle e capacidade de direcionar para elas a sua intuição.

Se uma tal empresa é complexa quando se trata de abordar a simbólica de um templo, muito mais problemática se revelará quando, como sucede no caso vertente, o mesmo santuário é simultaneamente destinado a Deus e reivindicado pelo Rei para sua habitação.

Uma das repercussões de tal ideário no Monumento de Mafra é enfatizada pela reiterada alusão à divisão duodecimal, cuja importância doutrinal foi sublinhada por Lucas (VI, 13-17) e Mateus (X, 2), consubstanciada nos 12 pórticos do edifício, nos 12 Apóstolos do Cordeiro, presentes na Galilé da Basílica, ou nas 12 x 12 [144 = Santa Jerusalém] moedas lançadas pelo esmoler do Magnânimo sobre a pedra fundamental. Porém, a repercussão da numerologia sagrada no Monumento de Mafra não se esgota, tão só, neste valor. Outro número recorrente, tradicionalmente associado à escatologia nacional, merece também referência. Trata-se do número 17, sob esta forma, da de algum dos seus múltiplos (34, 51, etc.), ou ainda sob a do seu valor secreto, 153, que exprime a soma dos valores dos nomes dos Apóstolos, fundamento da Cidade Santa (i. e., 1530), segundo Mateus (9 x 170 [= Nova Jerusalém]) e Lucas (10 x 153 [= Os Espirituais]).

De resto, para convenientemente descodificar o Monumento de Mafra torna-se indispensável recorrer reiteradas vezes ao Apocalipse atribuído ao vidente de Patmos, e, designadamente, aos enunciados consagrados à Nova ou Celeste Jerusalém pelos exegetas, significativo número dos quais propôs a reconstituição dela à imagem do seu protótipo, o Templo de Salomão.

A essa mesma luz, é impossível desdenhar da sintomática a omnipresente insistência da parenética coeva do Magnânimo, mas igualmente dos panegiristas de serviço, na atribuição da Basílica de Mafra ao Salomão da Lei da Graça (Dom João V), para tabernáculo de Santo António, por antonomásia chamado Arca do Testamento, que o mesmo é dizer Arca da Aliança.