Era uma vez um lavrador já velhote, que tinha um filho de dez anos; e por uma única cavalgadura para os dois um burro. Lá n’uma certa ocasião, em que o lavrador precisava de dinheiro, não teve remedio senão ir vender o burro a uma feira. Para o animal não chegar cansado e não desagradar por isso aos compradores o pai e o filho foram um atrás dele, outro adiante, a pé. Passaram por um sitio onde estava um magote de gente e ouviram dizer:
- Olha os tolos! Com um burro daquele feitio e vão a pé!
O velho disse ao rapaz que montasse no burro para não serem reparo ao povo.
Mais adiante estava outro ajuntamento e um homem disse:
- O patife do rapaz que podia muito bem ir rompendo os sapatos do senado vai acaburro e o pobre do velho, todo esbaforido, a pé!
O velho fez logo apear o rapaz e montou ele o burro.
Mais adiante começou a gente que estava pela estrada a murmurar:
- Então não lhes parece! Coitadinho do rapaz! mal pode andar e o maroto do velho escarranchado em cima do burro!
O velho fez montar o rapaz na garupa; mas mais adiante uma pouca de gente não os deixaram ir adiante, acusando-os de quererem matar com o peso o pobre burro. O velho e o filho apearam-se logo e o pai disse:
- Filho, vês que é impossível tapar a boca ao mundo. Cada cabeça cada sentença.
E lá foram o resto do caminho a pé adiante e atrás do animal, como tinham resolvido a ir quando saíram de casa.
In: COELHO, Adolfo – Contos nacionais para crianças. Porto: Livraria Universal de Magalhães e Moniz, 1882.